adágio

Domingo

foto © Joanna Nowakowska



contra a estreiteza dos dias, há o delírio de ti, os beijos que enchem o vento. escrevo-te contra a morte. torno-me transparente. e sobrevivo.



"Pela noite, quando as casas adquirem perfil espectral, um braço (julgo ser teu) acaricia-me através dum pórtico em ruínas."- Carlos Eurico da Costa in Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa, p. 127, Assírio & Alvim





"e tudo o que aconteceu emerge destas paredes seculares, regressa de novo a mim com a força das marés, os elos entre os factos diluem-se na neblina do tempo, surgem-me apenas as palavras como gritos" - Rui Herbon in Eterno Retorno

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Terça-feira

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Fotografia surripiada ao João Ferro
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unos: bote e reflexo. suspensos na bruma. qual decide a navegação? espero-te no rumor do gesto.
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"Tudo aquilo que espero encontra-se mais perto, mas tu és o último a chegar. É assim porque vieste do princípio de mim mesma" - Fernando Guimarães, Algumas palavras, p. 256, Quasi.

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estendo a mão ao vento salino. toco-te, e a mão deixa de ser minha.

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fotografia © Anke Merzbach

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lá fora chove. saio para receber os beijos em mim que me enviaste.

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"Nada mais sublime que a frase da chuva, /Onde o Indeciso soa com o Preciso." - M.S.Lourenço, Nada Brahma, p.25, Assírio & Alvim

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Duet made for the Geneva Ballet (Switzertland) 2005. Choreography: Annabelle Lopez Ochoa Dancers: Celine Cassone, Gregory Batardon. Music: J.S. Bach

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alagas-me, e eu passo a ter sentido.
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"Chove longínqua e indistintamente, /Como uma coisa certa que nos minta, /Como um grande desejo que nos mente." - Fernando Pessoa
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Domingo

fotografia ©Wojtek Kwiatkowsk

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vento: cavalo líquido. ouço-te e renasço. não há rédeas para estas crinas que só sabem o teu abraço.
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“Habito a lealdade dos presságios / Começo a ser um bom leito para o meu sangue” – Ernesto Sampaio, Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa, p.353, Assírio e Alvim





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cordas de transumância: como se toca um peito maior do que o seu destino?

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Sábado


fotografia © Anke Merzbach

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“Vivemos quase sempre fora de nós, e a mesma vida é uma perpétua dispersão. Porém, é para nós que tendemos, como os planetas, elipses absurdas e distantes.” - Bernardo Soares, Livro do Desassossego II, p.201, Presença

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dai-me o abismo para nele me verter. dai-me a solidão e terei a liberdade. eu e tu somos solidão.


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“A liberdade dentro de mim escraviza a minha própria liberdade” – Artur do Cruzeiro Seixas, Antologia da Poesia Surrealista, p.329, Assírio & Alvim

Segunda-feira

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fotografia © Anke Merzbach




não digas nada. não é preciso. eu alimento-me só de silêncio.

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"Pedem tanto a quem ama: pedem / o amor. Ainda pedem / a solidão e a loucura. / Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria. / E eles querem dizer: tu darás a tua existência / ardida, a pura mortalidade." - Herberto Helder in Ofício Cantante, p. 137, Assírio & Alvim





In the mood for love de Wong Kar Wai

porque o silêncio é a casa do grito.


"Sob as águias silenciosas, a imensidão carece de significado." - Antonio Gamoneda in Livro do Frio, p.9, Assírio & Alvim.


Sexta-feira

fotografia © Joanna Nowakowska
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dizem-me que és mentira. sorrio. eles detêm-se no corpo que não tens. e eu sorrio a guardar o segredo de ti, espírito, que me iluminas os dias.
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"no azul/ pronuncia uma palavra-árvore promissora de sombra, /e o nome do teu amor / acrescenta-lhe as suas sílabas.". Paul Celan in Sete Rosas Mais Tarde, p. 39, Cotovia, 1993
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trigo vermelho, tu. rosa amarela, eu. foi assim que o azul nos encontrou.
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"se o fogo tem dois lados, dois lados terá a água, dois lados o vento, e dois lados a terra. Se oito lados tem o mundo, quanto tempo um homem demora a conhecê-la na totalidade?" G. M. Tavares in Biblioteca, p.11, Campo das Letras
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nota: agradeço ao C.a. o vídeo mais que perfeito
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Terça-feira


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Fotografia de © Rosalie Denik

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inclino-me para os abismos da saudade, enigmas de sal e lodo dum poema inacabado.

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"Tenho saudades da hipótese de poder ter um dia saudades, e ainda assim absurdas." - Bernardo Soares in O Livro do Desassossego, II vol, p.31, Editorial Presença







terra sulcada por trincheiras. campo exangue. sangue que coalha em charcos. há outra paisagem para a dor?
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“mas a verdadeira dor não está presente no espírito. /Não está no ar, nem na nossa vida, /nem nestes terraços cheios de fumo. / A verdadeira dor que mantém despertas as coisas /é uma pequena queimadura infinita / nos olhos inocentes dos outros sistemas.”- Frederico García Lorca, Obra Poética, p.465, Relógio D’Água, 2007
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nota: agradeço ao C.a da Casa Improvável a sugestão do vídeo a partir do qual compus este post
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fotografia picada da net
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sei que a lua te alaga e que tens de ir. e sei esta ânsia sôfrega de me delir nos bosques com a falta que me fazes.

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"Estamos calados, a escutar e a olhar para o rumor /que faz a água ao passar no rego lunar. /Esse tempo suspenso é o momento mais doce."-Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, p.195, Cotovia
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"Sinto o pavor da beleza; quem se atreverá a condenar-me se esta grande lua de solidão me perdoa?" - Jorge Luís Borges, Obras Completas I, p.67, Teorema

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Sábado

fotografia © Anke Merzbach
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sob responsabilidade da Benjamina, da Manuela Araújo e do Rui Herbon que se fizeram, num mesmo sopro, seguidores deste Blogue, e, logo depois, o Diógenes e o Luís Sampaio, declaro o adágio oficialmente aberto, hoje, 30 de Agosto de 2009. - Teresa Sá Couto
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Segunda-feira

Adagio em G menor de Albinoni numa animação do cineasta russo Garri Bardin

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"(...) as pessoas exigem da verdade, como primeira condição, que seja provável; e contudo a probabilidade, como a experiência ensina, nem sempre está do lado da verdade." - Heinrich von Kleist, Sobre o Teatro de Marionetas e outros escritos, p.5, Antígona, 2009

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Sábado

Fotografia de © Rosalie Denik

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"Despedir-se é negar a separação, é dizer: hoje fingimos que nos separamos, mas ver-nos-emos amanhã."
- Jorge Luís Borges, O Fazedor, p. 27, Difel.
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despedir-me de ti é escrever o teu nome no mármore. com o meu sangue. depois morrer por ti. no incêndio.
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Sexta-feira

fotografia © Miriana-.
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o ofício da febre: tem-se uma pedra em fogo. deita-se-lhe chuva, orvalho ou uma lágrima. tem-se a palavra.
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“Para ti abro um espaço novo, /Num silêncio crepuscular: os pássaros calaram-se, /Para te restituir a música da chuva.” – M.S.Lourenço, Nada Brahma, p.47, Assírio & Alvim
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Melancolia de um dia de chuva – Johnny Guitar segundo Ennio Morricone
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sangue: bruma líquida. e assim se decretou a inquietação.
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pintura de Jaime Isidoro sobre poema de Eugénio de Andrade (da minha colecção "67 pinturas para Eugénio de Andrade")
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O azul para cobrir o corpo. é a minha herança o azul da cal - Eugénio de Andrade

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existir pelo azul e por ele desistir. sempre rente às fontes. és frio azul. és calma, azul. como é frio, solitário e calmo o espaço em que dançam as estrelas


azul também é isto: a comoção do sagrado com 74 anos de erudição

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